Leonard Schulz – L’indispensable op.40

Leonard Schulz (Viena, 1813 – Londres, 1860) é uma figura esquecida e obscura do mundo guitarrístico. Nascido no seio de uma família de músicos, foi um menino-prodígio que, juntamente com o seu pai e irmão, viajou pela Europa em digressão. A fama de virtuoso que obteve em vida como guitarrista, parece não ter sido suficiente para evitar o quase esquecimento da sua obra, fruto da sua vida atribulada, numa época em que o instrumento sofria já de um declínio na popularidade.

L’indispensable op.40, é uma interessante série de exercícios e estudos, publicada em Londres em 1840.

 

Escolhi Schulz e seu op.40 como tema de uma dissertação de mestrado há alguns anos e que vou revisitando com frequência. Os estudos têm propósitos técnicos muito específicos, e são reveladores de uma técnica evoluída, mas nem sempre ortodoxa pelo olhar contemporâneo.

Deixo aqui uma selecção em playlist (1,2,3,4 e 8). Os restantes, em breve...

Rui Namora, guitarra de 8 cordas construída por Jan Tuláček, réplica de J.A. Stauffer (1837)

Franz Schubert – Litanei (D.393)

Franz Schubert (1797-1828) – Litanei auf das Fest Aller Seelen (D.393)

Para Violoncelo e Guitarra, em duo remoto

Ana Mafalda Monteiro (violoncelo)

Rui Namora, guitarra romântica de 8 cordas

Fernando Sor – Andante largo op.5 nº5

Uma das peças mais conhecidas de Fernando Sor (Barcelona, 1778 – Paris, 1838) é o seu Andante largo. Incluído nas suas Six Petites Pièces très faciles pour la guitare, op.5. Permitam-me discordar do Señor Sor em relação ao subtítulo très faciles…

Tocada numa guitarra romântica francesa (Jean Français, Lille, 1828)

Partitura – Andante Largo, F.Sor

Festival RURIK 2020 (Suécia)

Entre os dias 12 e 15 de Junho de 2020, a localidade de Mellösa, na Suécia, vai acolher o primeiro festival europeu dedicado à Guitarra Russa de 7 cordas, o RURIK, organizado pelo guitarrista Mårten Falk. Durante esses dias, guitarristas vindos da Rússia, EUA, Noruega, Rússia, Suécia e Portugal  reunir-se-ão para divulgar o instrumento. O festival terá uma forte vertente pedagógica, com palestras, cursos e recitais, e cujo objectivo é a divulgação do repertório do instrumento junto dos (ainda…) guitarristas de 6 cordas que ainda não se converteram.

Há cerca de um ano, movido pela curiosidade e por uma guitarra de 7 cordas talvez cansada da sua afinação, comecei a dedicar-me a este instrumento (ver detalhe aqui). Depois de olhos trocados por teimosas notas em trastes diferentes, e idas ao tradutor da Google para decifrar títulos em cirílico, fui descobrindo algumas das suas idiossincrasias técnicas e estilísticas. Fui incentivado por músicos que admiro e tenho como referência, como o já referido Mårten e pelo Oleg Tymofeyev, que é, sem dúvida, o maior especialista mundial nesta área.

Para minha surpresa fui convidado pelo Mårten para participar neste primeiro festival. Levarei na bagagem alguns compositores russos, bem como transcrições de peças dos Paredes, que retratam bem que as almas russa e portuguesa, apesar de nos extremos da Europa, têm muito em comum.

António Marinheiro, de Carlos Paredes

António Marinheiro” é uma das minhas peças predilectas de Carlos Paredes.
Composta para a peça de teatro homónima de Bernardo Santareno (1967) (António Marinheiro – O Édipo e Alfama) ganhou vida própria através do disco “Movimento Perpétuo”, e claro, pelas mãos dos guitarristas que a mantêm viva.
Adaptada à Guitarra Russa de 7 cordas, mantém uma ressonância estranhamente próxima. Apesar da distância, um antepassado comum une estes dois instrumentos – a cítara, cuja afinação em terceiras a guitarra russa herdou e mantém, e a guitarra portuguesa, que para além dos aspectos organológicos óbvios, a desenvolveu.
António Marinheiro é a primeira de cinco peças de Paredes que transcrevi. A música de Paredes, apesar de profundamente portuguesa, tem uma força anímica única que ultrapassa os estereótipos fáceis da melancolia lusa.

Sarenko&Co

No final de 2018, o multifacetado guitarrista escocês Rob Mackillop inaugurou um site – SarenkoandCo.com – dedicado à Guitarra Russa de 7 cordas, ao seu repertório, à sua história e aos seus cultores.

Convidava, através dos seus vídeos, a juntarem-se-lhe na aprendizagem do instrumento. Eu já conhecia algum do seu repertório, riquíssimo e praticamente desconhecido no Ocidente, mas nunca me passou pela cabeça dedicar-me a aprender o instrumento, que sendo essencialmente igual, tem uma afinação diferente – razão pela qual este repertório praticamente não é tocado na guitarra “convencional”.

Rob Mackillop deu o empurrão que eu precisava, já que eu não sabia por onde começar. O método de Morkov, com alguns estudos originais, outros emprestados de Sor e Giuliani, constituiu a base para me habituar à leitura com a afinação e idiossincrasias do instrumento, do fraseio e da própria digitação.

Alguns meses (e vídeos) depois, foi com surpresa e satisfação que respondi às questões que o Rob me fez para uma entrevista no seu website.

Para quem quiser ler (em inglês), eis o endereço.

https://sarenkoandco.com/players/rui-namora/

Polka “Sokolov”

A Polka “Sokolov” é uma peça atribuída a Ivan Trepanovich Sokolov, embora não haja provas de que tenha sido realmente o seu autor. Independentemente da autoria, o seu nome ficou associado a esta música popular. Sokolov, um músico cigano, foi líder de um coro Moscovita no início do séc. XIX.
Tocada num instrumento original de finais do séc XIX, que antes passou pelas mãos do meu amigo Agostinho Tico Rodrigues da Porto Guitarra para lhe minorar algumas pequenas maleitas características da sua vetusta idade.

Arranjo para a guitarra russa de 7 cordas da autoria do (grande) Sergey Orekhov (1935-1998).

Nikolai Alexandrov – Coração (romance russo)

Continuando a descobrir a beleza escondida do riquíssimo repertório da guitarra russa de sete cordas, eis um pequeno romance de Nikolai Ivanovich Alexandrov/Николай Иванович Александров (1818-1885) (1884 no calendário juliano).
Extraído do seu Álbum de Romances Russos, “Coração” (сердце)

Partitura

The Entertainer, de Scott Joplin (1868-1915)

The Entertainer, de Scott Joplin

The Entertainer (a ragtime two step) é uma música velhinha, daquelas que ficam obsessivamente no ouvido, e que são, como diria Oliver Sacks, um verme auditivo. Na juventude, toquei um arranjo simples e bastante incompleto desta música, para deleite de alguns amigos (especialmente do F.V).

Frontispício da edição original (Saint Louis, 1902)

Há algumas semanas, o algoritmo do YouTube levou-me a este descontraído video de Richard Smith e Tommy Emmanuel. Se Tommy não toca neste video, a sua presença vale pela sua alegria durante e depois da performance.

Mais uma vez, o carácter viciante desta peça não me largou durante uns dias. Decidi então fazer um arranjo a partir do original para piano. A tonalidade original (em Dó) não se adapta bem à guitarra, e tal como Richard Smith, optei pela tonalidade de Ré para o arranjo, mantendo, tanto quanto a tessitura da guitarra o permite, as características do original. Em breve, farei uma gravação.

Não é propriamente uma peça típica do repertório clássico-romântico a que me tenho dedicado nos últimos anos, mas o carácter divertido da peça recorda-me tempos mais ingénuos.

Entretanto, para quem queira experimentar, o arranjo está disponível nas plataformas de venda de partituras Scorexchange, Sheetmusicplus e MusicaNeo, ou ainda em formato Kindle na Amazon.

Anton Diabelli – Andante Sostenuto

Anton Diabelli (1776-1858) foi uma figura central no panorama musical vienense na primeira metade do século XIX. Guitarrista, pianista, compositor e sobretudo um influente editor, ficou conhecido como sendo o autor do tema das Variações op. 120 de Beethoven, ou as célebres Variações Diabelli.

Entre a sua produção para guitarra (obras didácticas, variações, prelúdios, música de câmara), compôs três sonatas, op.29. A terceira, na tonalidade pouco usual de Fá maior, tem como andamento central um Adagio sostenuto, influenciado pela tradição haydniana, à semelhança dos seus contemporâneos Matiegka ou Giuliani.

Guitarra romântica (Pierre Marcard, Mirecourt, circa 1830)

 

Anton Diabelli – Andante sostenuto (Sonata op.29 nº3)

 

 

  • “Sem a música, a vida seria um erro” – Nietzche