Franz Schubert – Litanei (D.393)

Franz Schubert (1797-1828) – Litanei auf das Fest Aller Seelen (D.393)

Para Violoncelo e Guitarra, em duo remoto

Ana Mafalda Monteiro (violoncelo)

Rui Namora, guitarra romântica de 8 cordas

Fernando Sor – Andante largo op.5 nº5

Uma das peças mais conhecidas de Fernando Sor (Barcelona, 1778 – Paris, 1838) é o seu Andante largo. Incluído nas suas Six Petites Pièces très faciles pour la guitare, op.5. Permitam-me discordar do Señor Sor em relação ao subtítulo très faciles…

Tocada numa guitarra romântica francesa (Jean Français, Lille, 1828)

Partitura – Andante Largo, F.Sor

Festival RURIK 2020 (Suécia)

Entre os dias 12 e 15 de Junho de 2020, a localidade de Mellösa, na Suécia, vai acolher o primeiro festival europeu dedicado à Guitarra Russa de 7 cordas, o RURIK, organizado pelo guitarrista Mårten Falk. Durante esses dias, guitarristas vindos da Rússia, EUA, Noruega, Rússia, Suécia e Portugal  reunir-se-ão para divulgar o instrumento. O festival terá uma forte vertente pedagógica, com palestras, cursos e recitais, e cujo objectivo é a divulgação do repertório do instrumento junto dos (ainda…) guitarristas de 6 cordas que ainda não se converteram.

Há cerca de um ano, movido pela curiosidade e por uma guitarra de 7 cordas talvez cansada da sua afinação, comecei a dedicar-me a este instrumento (ver detalhe aqui). Depois de olhos trocados por teimosas notas em trastes diferentes, e idas ao tradutor da Google para decifrar títulos em cirílico, fui descobrindo algumas das suas idiossincrasias técnicas e estilísticas. Fui incentivado por músicos que admiro e tenho como referência, como o já referido Mårten e pelo Oleg Tymofeyev, que é, sem dúvida, o maior especialista mundial nesta área.

Para minha surpresa fui convidado pelo Mårten para participar neste primeiro festival. Levarei na bagagem alguns compositores russos, bem como transcrições de peças dos Paredes, que retratam bem que as almas russa e portuguesa, apesar de nos extremos da Europa, têm muito em comum.

António Marinheiro, de Carlos Paredes

António Marinheiro” é uma das minhas peças predilectas de Carlos Paredes.
Composta para a peça de teatro homónima de Bernardo Santareno (1967) (António Marinheiro – O Édipo e Alfama) ganhou vida própria através do disco “Movimento Perpétuo”, e claro, pelas mãos dos guitarristas que a mantêm viva.
Adaptada à Guitarra Russa de 7 cordas, mantém uma ressonância estranhamente próxima. Apesar da distância, um antepassado comum une estes dois instrumentos – a cítara, cuja afinação em terceiras a guitarra russa herdou e mantém, e a guitarra portuguesa, que para além dos aspectos organológicos óbvios, a desenvolveu.
António Marinheiro é a primeira de cinco peças de Paredes que transcrevi. A música de Paredes, apesar de profundamente portuguesa, tem uma força anímica única que ultrapassa os estereótipos fáceis da melancolia lusa.

Nikolai Alexandrov – Coração (romance russo)

Continuando a descobrir a beleza escondida do riquíssimo repertório da guitarra russa de sete cordas, eis um pequeno romance de Nikolai Ivanovich Alexandrov/Николай Иванович Александров (1818-1885) (1884 no calendário juliano).
Extraído do seu Álbum de Romances Russos, “Coração” (сердце)

Partitura

Victor Magnien – Andante op.17 nº1

Victor Magnien (Épinal, 1822 – Lille1885) – Andante op.17 nº1, dos “Six Andantes op.17 pour la Guitare” dedicados ao seu aluno Louis Kastner

Victor Magnien, nascido na região francesa de Vosges, foi guitarrista e violinista. Aluno de Carulli e Kreutzer, compôs solo e música de câmara para guitarra, concertos para violino, peças para piano, órgão e musica litúrgica
. Professor respeitado, Magnien publicou um tratado de Teoria Musical para ser usado pelo Sistema de Educação Imperial. Em 1846, foi nomeado director do Conservatório Imperial de Música em Lille.

Rui Namora – guitarra romântica de 8 cordas (Jan Tuláček), réplica de J.A. Stauffer (1837)

Vasily Sarenko – Romance sem palavras

Vasily Sarenko (1814-1881) – Romance sem palavras

Василий Степанович Саренко – Романс без слов

Partitura – Sarenko – romance

Alexander Dargomyzhsky – Romance, transcrição de V. Sarenko

Alexander Dargomyzhsky (1813-1869) – Romance “Юноша и дева”(O jovem e a donzela), poema de Pushkin. Transcrito para guitarra russa de sete cordas por Vasily Sarenko (1814-1881)

Partitura – Romance (Dargomyzhsky/Sarenko)

“À un jeune homme, pleurant amèrement,
Une jeune fille se plaint.
Penché sur son épaule
Le jeune homme soudain s’endort.La jeune fille se tait brusquement,
Chérissant son sommeil léger,
Et lui sourit
Versant des larmes silencieuses.”Alexander Pushkin

Andrei Sychra – Variações sobre um tema popular

A Guitarra Russa de sete cordas tem um repertório próprio e riquíssimo desde o início do séc. XIX. Devido à sua afinação em sol maior possui um timbre característico. O repertório para este instrumento, pouco conhecido pela generalidade dos guitarristas ocidentais, nem sempre é possível de ser tocado numa guitarra convencional, a não ser com um elevado esforço ou sobretudo com a mutilação da sua ressonância característica. Decidi confundir dedos e neurónios e aprender a tocar numa afinação diferente. Deixo-vos umas pequenas variações do patriarca da guitarra russa, Sychra.

Andrei Sychra (Vilnius, 1773 – São Petersburgo,1850) – Variações sobre um tema popular ( “Как иэ-эа леса, лесочка”)

Partitura

Antoine de Lhoyer – Andante poco Adagio

Antoine de Lhoyer (1768, Clermont-Ferrand – 1852, Paris) – Andante poco Adagio op. 43 n°13, extraído do “Divertissement pour la Guitare op.43”

Antoine de Lhoyer, compositor e guitarrista francês, abraçou a vida militar, mas a Revolução Francesa obrigou-o ao exílio em 1791, já que era um monárquico convicto. Combateu as tropas revolucionárias, com o Armée des Princes e com outras unidades militares leais ao Rei. Com o esmorecer da causa real, desmobiliza-se, e em 1800 fixa-se em Hamburgo, cidade para onde convergiram aristocratas fugidos à Revolução, e que faziam da cidade um ambiente propício para o seu trabalho como músico e professor. De Hamburgo parte em 1803 para São Petersburgo, contratado pela corte russa onde permanece até 1812, regressando a Paris, ainda com Napoleão no poder. Com a restauração da monarquia, recupera provisoriamente o seu estatuto militar. Com as reviravoltas da situação política e social francesa, emigra com a família para Argel em 1836, regressando a Paris pouco tempo antes da sua morte em 1852.
A sua obra musical, resgatada do esquecimento por investigadores como Mantanya Ophée e Erik Stenstadvold, constitui um expoente da música de câmara com guitarra da primeira metade do séc XIX.

Este Andante faz parte do seu “Divertimento op.43” publicado em Paris no ano de 1826.

Rui Namora, guitarra romântica séc. XIX (Jean Français, Lille 1828)

(Jean Français | Mirecourt, 1793-Lille, 1876)

  • “Sem a música, a vida seria um erro” – Nietzche